Sete dias no mundo da arte

 Organizada em torno de uma feira que reúne um seleto time de galerias brasileiras e estrangeiras sob um conceito curatorial inovador, a Semana de Arte apresenta ainda uma série de espetáculos e atividades culturais exclusivos, oferecendo ao visitante uma experiência singular

A Semana de Arte, que vai ocupar São Paulo entre os dias 14 e 20 de agosto de 2017, se propõe a celebrar, discutir e ampliar um mercado que vem crescendo de forma ímpar nos últimos 15 anos, na cidade que se consolidou como seu epicentro. Capitaneado pelos galeristas Luisa Strina e Thiago Gomide, pelo curador Ricardo Sardenberg e pelo empresário cultural Emilio Kalil, o evento se organiza em torno das artes visuais, mas vai muito além: a Semana começa com uma série de espetáculos exclusivos de artes cênicas, música, dança, cinema e literatura espalhados por diversos espaços, passa por um ciclo de debates repleto de convidados internacionais, por uma série de passeios arquitetônicos, e culmina em uma feira de arte com conceito curatorial inovador, que reunirá um seleto time de 39 galerias do Brasil e do mundo.

– É uma feira pequena, em que nós curamos as galerias e também as obras que serão levadas. É como se estivéssemos organizando 39 exposições simultâneas – resume a marchande Luisa Strina, que abriu a galeria que leva seu nome em 1974 e no ano passado figurou entre as pessoas mais influentes no mundo das artes pelas revistas “ArtReview” e “Vanity Fair”. – Queríamos uma feira que não tivesse só o enfoque do mercado, que tivesse em volta dela uma semana cheia de cultura.

– O que não falta no mundo é feira – completa Thiago Gomide, sócio-diretor da galeria Bergamin & Gomide. – Já que o mercado se desenvolveu tanto em São Paulo nos últimos anos, sentimos que há espaço para outro modelo, que se diferencie no critério das escolhas, na qualidade do conteúdo, que ofereça uma experiência singular, pensada nos mínimos detalhes. O importante é que ela surpreenda, que não tenha cara de um grande evento comercial, que o visitante perceba que tudo ali foi pensado, discutido, selecionado. Mais do que uma feira, trata-se de um grande evento de artes.

A ideia é oferecer um novo formato, em que os mercados primário e secundário não serão divididos em seções distintas e os estandes – dispostos sem hierarquia, sempre ocupando espaços entre 25 e 33 metros quadrados – passarão pela curadoria de Ricardo Sardenberg, focada na criação de um fluxo entre os espaços de cada expositor e num envolvimento mais profundo tanto com as obras à mostra quanto com a proposta das próprias galerias. Todas apresentarão projetos especiais, sejam solos, diálogos entre dois artistas ou em torno de temas específicos, como “Anos 70: o fim das utopias” ou  “Livros e memorabília do Surrealismo”. O evento acontece de quinta-feira (17 de agosto) a domingo (20 de agosto) no Hotel Unique.

Entre as participantes estão casas que não costumam frequentar o circuito brasileiro com assiduidade, como Luhring Augustine e Alexander and Bonin (ambas de Nova York). Sprovieri Gallery (Londres), Galleria Continua (San Gimignano) e Galería Elba Benitez (Madri) também marcarão presença. No rol nacional, figuram algumas das principais e/ou mais interessantes galerias do país (veja a lista completa abaixo). Na contramão do modelo de inscrições abertas comum às grandes feiras que se multiplicam pelo calendário mundial, todas as participantes terão sido eleitas e convidadas pela organização da Semana de Arte.

– Costumo dizer que é uma feira para os profissionais e para quem frequenta o mercado de fato. Não é um programa social, é para quem está envolvido mesmo. Vivemos um processo de especialização do mercado de arte em São Paulo, por isso uma feira para gente da área, uma vez que esse mercado cresceu tanto, se profissionalizou tanto e se diversificou tanto recentemente. Os colecionadores estão muito mais sofisticados, independentemente do padrão de capacidade econômica – diz Sardenberg, que foi o primeiro curador do Instituto Inhotim e cofundador da editora Cobogó. – Poderia ser só a feira, mas imagino a cidade de São Paulo, o maior centro metropolitano da America Latina, como um verdadeiro caldeirão cultural, e penso que isso deve ser estimulado. A Semana é a nossa contribuição.

Além de cuidar da curadoria da feira, Sardenberg é responsável por um ciclo de debates que também ocorrerá no Hotel Unique. As conversas vão explorar a globalização das artes visuais e suas implicações a partir de exposições que foram marcos históricos neste processo, contextualizando importância histórica, consequências e os desafios atuais. Cada uma será dedicada a um momento específico: 1989, ano em que a Terceira Bienal de Havana e a exposição “Magiciens de la terre”, em Paris, se notabilizaram por um mergulho até então inédito na arte criada fora do eixo Europa-Estados Unidos; 1997/98, quando Catherine David realizou a “Documenta X” em Kassel, que pôs o ponto de vista pós-colonial europeu em pé de igualdade com os discursos de todas as outras regiões do planeta, e Paulo Herkenhoff esteve à frente da “24a Bienal de São Paulo”, conhecida como a Bienal da Antropofagia; e 2017, tempo de avaliar os sucessos e os fracassos do movimento globalizante nas artes plásticas.

– A partir de 1989 ocorre uma transformação estrutural, não só do ponto de vista institucional, mas também do mercado e, claro, da produção artística. Até então as pessoas só colecionavam arte do seu país, ou estavam no eixo EUA-Europa. Ali se deu uma grande virada do que a gente entende hoje como uma arte global no contexto contemporâneo – comenta Sardenberg. – E a hora não poderia ser mais apropriada para debater esse assunto, porque estamos vivendo um período de crise da globalização. O mundo vive uma ressurreição do Estado nacional, uma busca por uma identidade nacional em vez de uma identidade cultural. Basta acompanhar a atual situação política e econômica; tudo isso está sendo posto em xeque. Não sabemos se vai acontecer um esgotamento ou uma grande reforma, mas há um debate muito forte em cima disso. No meio das artes ainda não é muito claro quais serão as implicações, mas, dependendo dos desdobramentos politicos, certamente haverá efeitos.

A programação além-artes visuais está a cargo de Emilio Kalil, que em 40 anos dedicados à gestão de atividades culturais dirigiu o Grupo Corpo, produziu a Bienal de São Paulo e, mais recentemente, foi Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e presidente da Fundação Cidade das Artes, além de já ter passado pela direção dos dois mais importantes teatros do Brasil, os Municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Kalil organizou uma série de apresentações de teatro, dança, música e literatura para abrir a Semana, sempre pautadas pelo ineditismo e apropriando-se de espaços inusitados da cidade.

– A ideia é que a Semana de Arte rode São Paulo, e minha proposta para os espetáculos é que eles aconteçam em lugares inesperados, que façam o próprio paulistano descobrir a sua cidade – pontua.

Alguns eventos exploram direta ou indiretamente o conceito do ciclo de debates. Maria Bethânia, por exemplo, prepara especialmente para a ocasião uma leitura musicada de fragmentos e testemunhos selecionados a partir de obras literárias que documentam a Diáspora Negra. Haverá também uma exibição especial do documentário “Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos”, codirigido por Francisco Martins e Eliza Gomes, que resgata a vida e a obra de Maria Martins (1894-1973), reconhecida como uma das maiores escultoras brasileiras. Esposa de um grande diplomata brasileiro, ela manteve uma ligação amorosa de 20 anos com o artista francês Marcel Duchamp.

– Maria Martins circulou de forma importante pelo mundo. Pode-se dizer que ela foi uma precursora do que está acontecendo hoje com a arte brasileira – frisa Kalil.

A lista de atrações é extensa. Hamilton Vaz Pereira comandará uma leitura dramatizada da peça “Trate-me leão”, uma das mais emblemáticas do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, interpretada por integrantes do elenco original 40 anos depois da estreia. O diretor também exibirá pela primeira vez a série documental “O cão comendo mariola”, que conta a história da trupe e chega em outubro à televisão. Haverá ainda um festival de vídeo-dança centrado em obras de coreógrafos que flertaram com as artes visuais – caso da parceria de Martha Graham com Isamu Noguchi, do encontro de Lia Rodrigues com a obra de Tunga ou de Loie Fuller imortalizada por Toulouse Lautrec – com direito a performance ao vivo da atriz Maria Luisa Mendonça. Ao final, haverá uma conversa com a crítica de dança Helena Katz, que também organizou uma exposição sobre o tema no foyer do teatro Tucarena.

A Semana de Arte se completa com quatro passeios por marcos arquitetônicos de São Paulo guiados pelo arquiteto Aieto Manetti. Dois serão autorais, percorrendo edificações de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha; os demais focarão nas regiões de Higienópolis e do Centro. A participação nos trajetos, que serão feitos de van, se dará mediante inscrição no site da Semana de Arte.

Confiante na amplitude do programa, Thiago Gomide –  que trabalhou como produtor do Inhotim e executivo da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro – conclui:

– Para quem gosta, consome e vive em volta de arte, está tudo ligado, tudo tem a ver, tudo é inspiração.

Isabel De Luca

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA: www.semana.art

GALERIAS PARTICIPANTES

ALEXANDER AND BONIN — Nova York

ALMEIDA & DALE GALERIA DE ARTE — São Paulo

ARTE 57 — São Paulo

CELMA ALBUQUERQUE — Belo Horizonte

central galeria — São Paulo

ELISABETTA CIPRIANI — JEWELLERY BY CONTEMPORARY ARTISTS – Londres

FOLIO — São Paulo

FORTES D’ALOIA & GABRIEL – São Paulo

GALERIA A GENTIL CARIOCA — Rio de Janeiro

GALERIA BERGAMIN & GOMIDE — São Paulo

GALERIA CASA TRIÂNGULO — São Paulo

GALERÍA ELBA BENITEZ — Madri

GALERIA ESTAÇÃO — São Paulo

GALERIA FRENTE — São Paulo

GALERIA ITAMAR MUSSE — Salvador

GALERIA JAQUELINE MARTINS — São Paulo

GALERIA LEME — São Paulo

GALERIA LUISA STRINA — São Paulo

GALERIA MARILIA RAZUK — São Paulo

GALERIA MARIO COHEN — São Paulo

GALERIA MENDES WOOD – São Paulo

GALERIA MILLAN — São Paulo

GALERIA NARA ROESLER — São Paulo

GALERIA SÉ — São Paulo

GALERIA VERMELHO — São Paulo

GALLERIA CONTINUA — San Gimigniano

GALLERIA FRANCO NOERO — Turim

GUSTAVO REBELLO ARTE – Rio de Janeiro

LUCIANA BRITO GALERIA — São Paulo

LUHRING AUGUSTINE GALLERY — Nova York

LURIXS — Rio de Janeiro

PAULO KUCZYNSKI ESCRITÓRIO DE ARTE — São Paulo

PINAKOTHEKE — São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza

RAFAEL MORAIS — São Paulo

RESPLENDOR ANTIGUIDADES — São Paulo

RONIE MESQUITA — Rio de Janeiro

SIMÕES DE ASSIS — Curitiba

SPROVIERI GALLERY — Londres

SUPERFÍCIE — São Paulo

 

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