MARCO NANINI

A estreia, em janeiro, de “Êta mundo bom!”, novela de Walcyr Carrasco que ocupará o horário das 18h na grade da Rede Globo, traz de volta aos folhetins, depois de 17 anos, o ator Marco Nanini, cujo talento vem sendo compartilhado com o público ao longo de 50 anos de carreira. Sua última participação nesse segmento de dramaturgia foi em “Andando nas nuvens” (1999), de Euclydes Marinho, em que interpretava o protagonista Otávio, um homem desmemoriado que tentava reconstruir seu passado. Nanini, depois disso, integrou o elenco de um dos mais bem-sucedidos programas da história recente da TV brasileira: a série “A grande família”, retrato bem-humorado do cotidiano de uma família do subúrbio carioca, no ar durante 14 anos (de 2001 a 2014). No programa, ele vivia Lineu, responsável e adorável chefe do clã Silva.
Agora, ele será Pancrácio, espécie de mentor de Candinho, papel de Sergio Guizé. A trama é inspirada em “Candido, ou O Otimismo” (1759) de Voltaire, mas a partir da ambientação caipira do filme “Candinho” (1953), de Abílio Pereira de Almeida, com Mazzaropi no papel-título. A ação tem início num ambiente rural, de onde Candinho parte para São Paulo. Pancrácio, nas palavras de Nanini, “é meio um andarilho, finge-se de mendigo para ganhar dinheiro, tem muitos disfarces”. Um papel sob medida para a versatilidade do ator, um dos mais completos e talentosos de sua geração.

– A série era maravilhosa, mas tinha que acabar. E, depois de 14 anos vivendo numa rotina estabelecida, estou muito feliz, é uma maneira boa de voltar às novelas, num horário com o qual simpatizo muito – diz ele.

Lineu Silva não foi o único papel duradouro de Marco Nanini. Durante 11 anos, de 1986 a 1996, o ator encenou, ao lado de Ney Latorraca, “O mistério de Irma Vap”, de Charles Ludlam, com direção de Marilia Pêra, um fenômeno na cena teatral. Mas ele soube alternar esses longos períodos com produções mais experimentais. Depois de “Irma Vap”, assumiu as rédeas de sua carreira em peças como “O burguês ridículo” (1996) primeira direção no teatro de Guel Arraes (em parceria com João Falcão), “Uma noite na lua” (1998), que Falcão escreveu para o ator; “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (2000), dirigida por Falcão, “Os solitários” (2002), de Nicky Silver, e “A morte de um caixeiro viajante” (2003), ambas encenadas por Felipe Hirsch, e “Um circo de rins e fígado” (2005), direção de Gerald Thomas, que também escreveu o texto especialmente para o ator. Esse mergulho em projetos mais autorais, com sua participação em todas as etapas, só foi possível graças à Pequena Central, produtora criada em 1998 em parceria com Fernando (Nando) Libonati. Em 2009, a dupla Libonati e Nanini ainda se envolveu em outro tipo de empreendimento: criou o Galpão Gamboa, espaço na Zona Portuária do Rio que hoje atende a 300 moradores das redondezas, com projetos sociais e artísticos, e que desde 2010 funciona com uma extensa programação de espetáculos. Além de ator, diretor e produtor, ele tornou-se um bem-sucedido empresário cultural. E, como quase sempre acontece nesses casos, tudo começou por acaso. Ou pela igreja.
DE COMO A MISSA ACABA NO TEATRO

Nascido em Recife, em 31 de maio de 1948, Marco Antônio Barroso Nanini chegou ao Rio em 1965, aos 10 anos, depois de ter vivido em diferentes cidades do Brasil, acompanhando o pai, gerente de hotel. Começou a trabalhar cedo, aos 13 anos, como um faz-tudo no Hotel Regina, no Flamengo; mais tarde, passou para um banco, onde revelou-se sua empatia com o público. “Péssimo em contas”, reconhece, depois de ser transferido para vários setores ele acabou no atendimento aos clientes. Não sem criar uma certa confusão:

– Todo mundo queria ser atendido por mim, comecei a atrapalhar o funcionamento do banco – conta, rindo.

Paralelamente a isso, um outro Nanini começaria a descobrir sua vocação, que viria a ele através de uma obrigação ditada pela mãe: ir à missa aos domingos. A liturgia deixara há pouco de ser praticada em latim, e os fiéis eram chamados a participar do culto, lendo epístolas. Por conta disso, aqueles que subiam ao púlpito da igreja Santa Teresinha, em Copacabana, passaram a ter aula de voz (“Coisa que então eu nem sabia que existia”, diz ele). A aula era aos sábados, na casa paroquial, onde um grupo de teatro infantil também ensaiava uma peça, “O bruxo e a rainha”, de Pedro Reis. Nanini ficou amigo do elenco. Quando um ator teve que deixar a peça, recorreram a ele para substituí-lo. O bruxo, apesar de constar no título, tinha uma cena pequena. Que revelou-se enorme para o ator:

– Tive no primeiro dia uma das revelações mais fortes da minha vida, que era a de estar representando. Eu estava completamente enfeitiçado, nunca tive de novo uma emoção como aquela.

O ano em que subiu ao palquinho do salão da igreja, 1965, é o marco zero na sua carreira. Ali, no grupo, conheceu Pedro Paulo Rangel (o Pepê), outro grande ator de sua geração (e foi para aquele grupo que escreveu o primeiro de seus dois únicos textos teatrais, o infantil “A floresta encantada”; o segundo, o monólogo “Descasque o abacaxi antes da sobremesa”, de 1973, foi montado por Antonio Pedro, com André Valli como ator). Na mesma época de “O bruxo e a rainha”, através de um hóspede do hotel, recebeu uma recomendação para se encontrar com a diretora do então Serviço Nacional de Teatro, Barbara Heliodora, que viria a se tornar uma das críticas mais respeitadas do país.

— Eu era um franguinho bobo, e ela me situou: “Meu filho, as coisas não são assim.” Mas me deu o caminho das pedras: onde tinha curso de teatro (o Conservatório Nacional de Teatro, hoje Curso de Teatro da UniRio), como fazia para entrar. Fizemos, eu e Pepê, o vestibular, passamos, fizemos o curso de teatro. Foi aí que comecei a saber o que era mesmo o teatro.

Ao entrar na escola, Nanini achava que seu destino era a tragédia.

– Ali tinha que fazer de tudo, mas eu só achava bonito a tragédia. Fiz tragédia de maneira péssima – conta.

Até que para a peça de fim de ano, encenada internamente, para um público de alunos, Sergio Viotti, professor de interpretação, escolheu-o para o único papel cômico do drama “Juno e o pavão” (1924), do irlandês Sean O’ Casey.

– Não queria, reivindiquei que ele mudasse, mas não teve jeito. Quando fiz a cena as pessoas começaram a rir de mim. Achei que era deboche. Mas não era. Estavam gostando. Foi na escola que conheci Molière, e fiquei louco por comédia. Sabia que um dia ainda iria fazer um Molière.

Enquanto isso, sua carreira começava a tomar rumo. Estreou em novelas em “A ponte dos suspiros” (que Dias Gomes escreveu com o psudônimo Stela Calderón, em 1969) como um figurante, um espadachim cuja função era desferir golpes, e, aos poucos, foi ganhando falas. No mesmo ano, trabalhou com Dercy Gonçalves, na peça “A viúva recauchutada”, de Somerset Maugham. Hoje, diverte-se ao lembrar de como entrou no palco sem ter sido convocado para um ensaio sequer – para quê, se existia um ponto eletrônico que lhe passava as marcas, coisas como “agora vai até o sofá”? Era um teatro bem mambembe, como o que fazia também com os comediantes Milton Carneiro e Amândio.Com Dercy, ainda, ele faria “A gatatarada” (1970).
DE “IRMA VAP” AO MOLIÈRE DESEJADO

O encontro com Marilia Pêra daria início a uma nova fase. A atriz, a quem fora apresentado por Ary Fontoura, e que admirava pelo trabalho em “A Moreninha” (1965), chamou-o para o seu primeiro papel importante, na peça “A vida escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” (1970), de Bráulio Pedroso. Uma coisa puxou a outra, e ele foi escalado para a novela “O cafona” (1971), do mesmo autor. Foi um período intenso para Nanini, em que os trabalhos se sucediam. Na TV, entre outras, fez “O primeiro amor” (1972), “Gabriela” (1975), “O feijão e o sonho” (1976), “Um sonho a mais” (1985) e “Brega & chique” (1987).

No teatro, o sucesso “As desgraças de uma criança” (1973), de Martins Pena, primeira vez em que contracenaria com Marieta Severo, presença constante em sua carreira. Em seguida vieram o musical “Pippin” (1974), dirigido por Flávio Rangel, “Pano de boca” (1975), com direção de Aderbal Freire-Filho. “Deus lhe pague” (1976), dirigida por Bibi Ferreira. Em São Paulo, fez “Os filhos de Kennedy”, com direção de Sergio Britto, (1977), e “Zoo story”, de Edward Albee, com direção de João Albano (1978), recebendo por dois anos consecutivos o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor ator. “Doce deleite”, com Marília Pêra (1981-1984) e “Mão na Luva” (1984), novamente com direção de Aderbal Freire-Filho, que lhe deu o Troféu Mambembe; até chegar ao sucesso de “Irma Vap”.

– Quando acabou “Irma Vap” começamos, eu e Nando, a desenvolver um plano de produção onde as coisas aconteceriam com mais cuidado, mais planejamento, uma busca de variação no repertório. Foi quando fiz “O burguês ridículo”, o Molière que queria encenar desde os tempos da escola.

Escrita por João Falcão, Guel Arraes e José Almino, “O burguês ridículo” (1986) misturava duas peças de Molière, “As preciosas ridículas” e “O burguês fidalgo”, e ainda cenas de outros textos do dramaturgo. Foi o divisor de águas na carreira, início de um processo que Nanini já perseguia, em que todos os envolvidos na montagem tinham voz, “para que o projeto fosse realmente uma ideia, e não somente uma peça”.
A parceria com Guel, que dirigiu o espetáculo com João Falcão, havia começado na televisão, em 1988, com a “TV Pirata”, programa que renovou o humor na Globo. Mas se consolidaria mesmo em 1993, um ano depois de o ator ter decidido dar um tempo nos folhetins (havia acabado de atuar em “Pedra sobre pedra”, 1992), por achar que os papéis que lhe ofereciam não apresentavam mais um desafio. Seu contrato com a Globo acabou, mas os trabalhos, não. Guel, que dirigia o “Brasil Especial”, chamou-o para vários episódios. Eram adaptações de contos de autores brasileiros, como “O mambembe”, “O alienista” e “O homem que sabia javanês”. Depois, viriam os episódios de “Comédia da vida privada”, originalmente com textos de Luis Fernando Verissimo, em seguida com roteiros originais de autores como João Falcão. Apesar de há muitos anos trabalhando na televisão, o ator conta que a câmera, até então, o inibia muito. “Com o tempo fui relaxando, mas sempre desconfiado”.

– Foi só trabalhando com Guel que perdi a timidez na TV. Sua direção era cinematográfica, com câmeras em todo lugar, atrás do ator. Isso não existia antes. As câmaras na TV ficavam todas de frente, como se estivessem num teatro. Comecei a ficar excitado com essa decupagem cinematográfca dele, porque eu gosto de problemas em cena. Os problemas me prendem a atenção, trazem risco ao trabalho.

Sob o comando de Guel, Nanini fez os filmes “Auto da Compadecida” (2000), “Lisbela e o prisioneiro” (2003) “Romance” (2008) e “O bem amado” (2010). Sua história de sucesso na tela grande remonta a 1995, quando contracenou com Marieta Severo em “ “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995), de Carla Camurati. O filme foi o primeiro grande sucesso da chamada Retomada do cinema brasileiro, depois de anos de produção incipiente provocada pelo fim da Embrafilme, em 1990. Ao longo da carreira, Nanini e Marieta têm reafirmado a química observada nos papéis de D. João VI e Carlota, ou de Lineu e Nenê, em “A grande família”. Com Carla, ele fez ainda “Copacabana” (2001) e “Irma Vap, o retorno” (2006). A participação do ator na tela grande teve ainda longas de, entre outros, Miguel Farias (“O Xangô de Baker Street”, 2001), Hugo Carvana (“Apolônio Brasil – O campeão da alegria”, 2003), Helvécio Ratton (“Amor & cia”, de 1999), e Arnaldo Jabor (“A suprema felicidade”, 2010).

A mesma busca por papéis mais variados e por novas formas de produção se refletiram no Galpão Gamboa. A programação do local, que envolvia curadores e atores mais jovens, acabaram por revigorar a carreira do ator. Ele, que já havia feito “O bem-amado” (2007) com a Cia dos Atores, dirigido por Enrique Diaz, começou a tecer parcerias com companhias e atores mais jovens. Atuou, com o Teatro Independente, em “Beije minha lápide” (2014), texto escrito para ele por Jô Bilac, com direção de Bel Garcia. Para 2016, começa a encaminhar outro projeto, a montagem de “Ubu Rei”, de Alfred Jarry, com a Cia Atores de Laura, dirigida por Daniel Herz. O projeto nasceu a partir de leituras, nas quais “Ubu Rei” “ganhou de 10 a zero”, conta Nanini: “Impressionou muito pela atualidade, fala de um déspota despudorado, assassino, mentiroso, mas de quem você acaba gostando”.

– Quero dar continuidade a essa especulação com artistas com os quais não tinha nenhum contato. Cada um tem a sua experiência. Eles me ensinam muita coisa, e eu a eles, trocamos muito em cena. São jovens sérios, que encaram a profissão de uma maneira muito bonita.

Aos 67 anos e 50 de carreira, Marco Nanini parece ser o jovem mais sério de todos, em sua recusa pelo óbvio e busca por novos caminhos.